Brighid: além da lareira

Texto original de palestra apresentada no VIII EBDRC Paranapiacaba-SP 2017

INTRODUÇÃO

 O que eu vou apresentar para vocês é uma pesquisa ainda em andamento sobre Brighid, não é uma pesquisa acadêmica, mas uma pesquisa de cunho religioso e ela surge de inquietações acerca do culto a Brighid.

Brighid encerra em si uma imensa contradição: Ela é uma deusa de extrema popularidade, é a deusa mais cultuada em território nacional, talvez ela seja a deusa mais cultuada pelos pagãos celtas, pelos politeístas celtas de qualquer nomenclatura da contemporaneidade seja druidismo, reconstrucionismo, na wicca… ao mesmo tempo que é uma deusa carente de mitologia. Claro que existe muito pouca mitologia sobre muitos deuses celtas  mas ao menos dessa pouca mitologia é possível se traçar algum perfil que seja desejável pra um deus e quando me deparo com a mitologia de Brighid não consigo ver a deusa cujo perfil foi traçado no imaginário dos devotos contemporâneos, então aprende-se nos círculos, nas clareiras, nas rodas de conversa, nos covens, nas ordens que Brighid é uma deusa de fogo, Brighid é a deusa da lareira, é associada a luz solar, seu símbolo, a cruz é um símbolo proto-celta do movimento solar, seria uma musa inspiradora da poesia, uma ferreira, uma curandeira ou teria 2 irmãs com mesmo nome e que carregam essas funções, então Brighid é uma deusa imensamente sedutora, é fácil entender a sua popularidade mas quando eu vou à mitologia eu não consigo encontrar essa deusa que o imaginário popularizou. Então antes de julgar uma discrepância e excluir o culto à Brighid, eu fui buscar Brighid com os olhos de quem quer descobri-la, desaprender e me afastar pra enxergar melhor.

Eu parti de uma gnose pessoal de que tantos deuses caíram no esquecimento, outros só sabemos que existe por conta de uma inscrição em uma pedra votiva, mas Brighid se alastrou na contemporaneidade, Brighid rompeu essas fronteiras então a minha fala é a fala de uma pesquisadora, mas é a fala de uma religiosa, então eu quis acreditar a partir dessa reflexão pessoal, que se ela se alastrou pelo culto contemporâneo, que se é a mais cultuada no Brasil e no mundo, ou ao menos está empatada com Morrighan, ou está em segundo lugar logo após a Morrighan que essa deusa tem mais faces do que eu estou conseguindo enxergar através da mitologia irlandesa.

Eu começo a minha fala fazendo uma citação de Francis Bacon , que está num dos livros de mitologia celta e nessa citação o filósofo diz que “do mesmo modo que Deus usa a ajuda na nossa razão para nos iluminar, nós devemos nos transformar em todos os sentidos, de modo a sermos mais capazes a entender os seus mistérios, desde que a mente seja ampliada de acordo com a sua capacidade, ante a grandeza dos mistérios, e não os mistérios serem contraídos à estreiteza da mente.

Bacon nos convida a ampliar a nossa mente para entender os mistérios e não estreitá-los pra caber na nossa mente, pode não ser fácil mas tem sido interessante. Eu parto do pressuposto de que foi a imagem de Brighid estreitada pela nossa mente.

Que imagem é essa que eu questiono? O que me incomoda?

Em suma o estereótipo de deusa dos laticínios, pastora primaveril. Uma deusa de fogo, mas do fogo tênue da lareira doméstica, dos primeiros raios de sol do começo da primavera. De por um lado eu tenho uma mitologia irlandesa escassa que me conta que ela participa em um casamento arranjado e pranteia a morte de seu filho traidor, ou seja, sem papel ativo no cenário, de outro eu tenho uma santa homônima com delicioso molho de paganismo sobre si.

Nós sabemos que Brighid foi uma das deusas canonizadas, isso é quase unânime…como foram muitas divindades pagãs e a Santa com seu nome tem várias histórias interessantes com torre de fogo saindo de sua cabeça, o poema do Lago da Cerveja e é inegável que possa haver ecos da Deusa Brighid nessas lendas: ela protetora das leiteiras, poetas, fazendeiros de aviários, trabalhadores de imprensa, fugitivos e crianças cujos pais não são casados. Seu dia é o mesmo que atribuímos à Deusa, o dia de Imbolg, 1 de fevereiro. Pensar que todos esses atributos são da Deusa é uma tentação, tendemos a fazer a correspondência imediata.

Chamada de Maria dos Gaélicos, ou Mãe dos Gaélicos, seu símbolo é uma cruz de junco a ser posta na porta ou lareira com objetivo de proteger o lar. A imagem contemporânea da deusa Brighid atende a esse formato mariano, ela não participou da guerra, logo seria uma princesa da paz, primaveril, ligada a maternidade. Não acho que esses epítetos estão errados, não estão, só que acabam formando um perfil extremamente dócil e passivo, mariano que soa incompatível com aquilo que sabemos da sociedade celta. Então eu comecei a buscar ampliar essas funções e epítetos.

BRIGHID NA MITOLOGIA IRLANDESA

Brighid parece apenas no glossário de Cormack e na Segunda Batalha de Moytura.

brigit glossario de Cormac

O glossário nos informa vai nos dizer que são três irmãs com mesmo nome e que seu nome significa breo-aigit ou breo-shaight flecha flamejante. Eu adoro essa tradução, mas ela parece irreal, ou pelo menos carece de demais confirmações etimológicas. E na batalha ela se casa pra selar a paz entre Tuatha e Fomorians e depois pranteia a morte de seu filho que tinha tomado o lado do pai na batalha.

Em Topografia of Ireland Giraldus Cambrensis conta que o culto à Santa Brígida envolve uma chama Sagrada protegida por 19 e freiras e quem atentasse contra esse fogo seria amaldiçoado. Apesar de nos remeter à possíveis práticas pagãs a Nora Jolliffe coloca que 1 de fevereiro era uma data comuns de festivais de fogo por toda Europa não necessariamente ligados a uma divindade, então essa data poderia ter sido exclusiva da santa e que passará a ser atribuída à deusa posteriormente, o que me fez pensar que toda a imagem de Brighid que me incomoda foi construída a partir de uma repaganização da santa.

Essas são as informações que a Irlanda nos fornece, e a partir daí faz-se uma imagem bem desinteressante: ela não se casou por querer, o filho dela era um traidor e o seu grande papel na maior das batalhas que envolvem os deuses da Irlanda foi chorar tanto que seu grito foi ouvido por toda a ilha momento da morte de seu filho que estava tentando matar o próprio tio então Brigit da mitologia me parece uma figurante, ela não faz nada na batalha, ela não atua como ferreira nem como curandeira.

Na Escócia ela aparece como contraparte ou vítima de Bera e encarna uma deusa primaveril que só exerce seu poder depois de salva por Oengus então ainda não é um papel pleno de divindade.

Se os elementos ativos, de protagonismo de Brighid ainda estão confinados à montanha de textos gaélicos sem tradução, ou se foram extirpados pela canonização não sei, o fato é preciso sair das ilhas pra obter mais informações.

Nesse processo o primeiro passo foi a etmologia.

Imagem1

Em qualquer fonte que você procure, mais acadêmica ou qualquer blog simples você vai perceber que rapidamente se faz uma lista de nomes cognatos: Brigit Brighid Bridget Brigantia e elas são rapidamente colocadas como equivalentes ou como sinônimos e a sequência dos textos discorrem sobre as características de ferreira, curandeira, musa inspiradora da Brighid irlandesa.

Mas Brigantia é uma deusa que aparece no território de mesmo nome no Norte da Inglaterra, na península ibérica e se elas tivessem as mesmas características de Brigid irlandesa, a associação lógica seria com Vesta/Héstia, que é a deusa grega/romana do fogo doméstico, do lar, pra quem também se mantém uma chama sagrada.

Vale lembrar que Brighid irlandesa é fruto da literatura cristianizada e Brigantia é anterior.

Brigantia dos brigantes no n. da Inglaterra BRIG BRIGANS BRIGANT BRIGINDU
Nora
Jolliffe acredita que todos os adoradores de Brigantia, Brigindu de Volnay e da Irlanda tenham ancestrais comuns nos Brigantii do Lago constance.

A Brigantia dessa região aparece em 3 inscrições romano-britônicas com formas variadas Brig Brigan Brigant Brigantia, não há motivos pra acreditar que sejam divindades diferentes pois os celtas não escreviam, essas eram inscrições de alguém que estava registrando o som que ouvia, isso justifica as variações:

 

O mais notável é que sua associação é com Vitória, Minerva e Dea Caelestis. Os romanos tinham por hábito fazer pares de seus deuses com deusas locais, respeitando as características de ambos, essa associação não era aleatória, e nesse casamento Brigantia aparecia pareada á Jupiter Dolichenus.

Curiosamente todo registro que se tem de Brigantia em território dos Brigantes vem da época em que há muito já estavam sob governo romano, então não sabemos exatamente com os celtas viam Brigantia, podemos interpretar que se ela foi romanizada como Minerva, Vitória e Dea Caelestis e Augusta Tutela ela deveria ter as características dessas interpretações.

Jupiter Dolichenus

plaque-ii

Há 7 registros feitos em sua homenagem na Inglaterra, 3 em Yorshire, 3 na região da Muralha de Adriano e uma na Escócia próximo à Muralha e desses apenas 2 são atribuídos à devotos celtas, ela análise de seus nomes. Nesses 2 registros ela é chamada simplesmente de Dea Brigantia. Nos altares feitos por devotos romanos ela recebe associações. Então vou analisar cada uma delas:

As dedicações à Dea Victoria Brigantia são muito interessantes pois não há registros de outras deusas locais associada a romana Vitoria, então nos resta especular sobre os motivos dessa associação: Brigantia poderia ser a única deusa comparável a Vitoria pela interpretativo romana ou significaria a vitória sobre os brigantes pois essas dedicações estão associadas sempre a família do imperador Severus.

Todas as dedicações à Brigantia nessa região foram feitas sob o governo de Severus Septimus e Julia Domna sua esposa e continuaram no governo de deu filho apelidado de Caracalla, devido a túnica celta que sempre usava.

A verdadeira razão do ressurgimento desse culto e misteriosos porque nesse momento parece que os próprios romanos encorajaram seu culto por razões próprias, por isso ela aparece sempre de forma romanizada, não que os romanos não fizessem isso em outras ocasiões, mas a promoção dela a protetora da província é notória. Como não existem documentos registrando quais seriam as estratégicas religiosas para instalação da dinastia Severiano na Britânia, nenhum plano de cooptação de Brigantia, mas os fatos parecem apontar para essa conclusão porque seu culto emergiu tão logo eles chegaram todas as ideias acerca desse ressurgimento do culto a brigante permanecem no âmbito da especulação. Alguns autores inclusive especulam que o culto a Brigantia tenha sido apenas uma propaganda desse governo sabe-se lá por que motivos, porque os registros cabem exatamente dentro do governo dessa família. Não se sabe os motivos dessa insurreição, mas se fosse apenas uma propaganda do governo deveria haver mais registros, ou pelo menos altares oficiais mas o que temos hoje são dedicações pessoais de agradecimento ou pedidos saúde à família imperial.

Como imperadores eles são bem interessantes, são do norte da África e da Síria, eles são também os sacerdotes chefes do império e quando se mudam pra Inglaterra, coisa rara entre os imperadores, carregam pro norte da Inglaterra ideias próprias sobre religião, sobre seus cargos e  culto a deuses de seu locais de nascimento, como Dea Caelestis que é o nome romanizado de Tanit deusa de culto de Julia Domna e o próprio Jupiter Dolichenus que é um deus de um assentamento armênio em Doliche, Turquia que foi romanizado  e se tornou muito popular no século 2 e 3.

A inscrição à Dea Brigantia Caelestis, mesma deusa de culto pessoal da imperatriz que é uma deusa Rainha do Céu síria-romanizada, prova que Brigantia era, ao menos aos olhos romanos, uma deusa de Soberania.

A associação com Minerva também é bem significativa, como eu levantei anteriormente, muitos textos se apressam a equiparar pelo prefixo Brighid e Brigantia, mas ela nunca foi associada a Héstia, ela será mais associada à Minerva. Minerva também tem qualidades curativas então pode-se pensar que Brigantia também teria.

Esses casamentos tinham o mesmo propósito dos casamentos humanos entre tribos, segundo McGarth, a ideia era parecer os deuses romanos parecerem nativos e promover a harmonia. Eles permitiam que os romanos aproveitassem os poderes das deusas nativas para evitar sua ira, mas jamais uma deusa romana “se casou” com um deus nativos, parece haver uma concepção de que a deusa nativa seria dada a honra de ser elevada ao status de romana, mas o contrário seria considerado como rebaixamento.

Vou falar um pouquinho sobre os Brigantes dessa região, Brigantes foi o nome dado a uma federação de tribos mais ou menos conectadas entre sique habitava ali a região do Norte da Britânia a maioria em Yorkshire, Lancaster, Durham e Northumberland. O centro era Isurium Brigantium que hoje deve ser Aldborough em Yorkshire. O seu repertório, de mar a mar e tendo em vista que se trata de um terreno montanhoso, especula-se não seria desse território montanhoso, ou seja, alto que viria seu nome tribal normalmente se traduz High Ones ou seja, Os Altos, poeticamente seriam exaltados o que nos leva a origem da palavra briga, mas talvez fossem apenas altos porque eles ocupavam as partes mais altas da montanha.  Os brigantes se concentravam no Pastoreio de ovelhas e de outros animais, mas promoveram várias insurgências contra os romanos, tudo que a gente sabe deles vem do governo romano principalmente dos relatos preocupados que tácitos fez acerca de sua rainha Cartimandua, que foi aliada dos romanos e de Boudicca.

Não foram os Brigantes que chamaram assim seu território..

Vitoria é a deusa romana dos exércitos e essa associação deve ter sido feita por soldados em tempos de revolta com os Brigantes (Jolliffe), lembrando que das 7 dedicações 5 foram feitas por oficiais romanos.

Dessas dedicações se destaca a estátua de Birrens que foi encontrada na Escócia nas proximidades da Muralha de Adriano ela data provavelmente de 210, sua composição é toda romanizada na verdade a gente só sabe que ela não é Minerva porque está escrito que se trata de Brigantia, McGarth diz inclusive que pode ser que outras estátuas dedicadas à Minerva sejam na verdade de Brigantia.

César descreve que a Minerva gaulesa é uma patronesse dos trabalhos manuais e artesanato, o que inclui a ferraria, mas os símbolos dessa Brigantia do século 3 nos mostram que sua importância era maior.

 

Brigantia de Birrens
O escultor teve muito trabalho para lidar com uma sofisticada sincretização Romana e trabalha na criação de uma peça inspirada na imagética clássica e africana a inserção de elementos africanos nos dá a ideia do consulente era umas ideias religiosas de Severus e com fortemente no exterior mudado um culto original a Brigantia.
O fato dela ser associada à Minerva e a Vitória já me diz que ela não era uma deusa com características idênticas ao que seria registrada posteriormente pela mitologia irlandesa. Então vamos à estátua:
No relevo de Birrens, Ela recebe o título de Caelestis Brigantia.Ela está esculpida com uma túnica longa e uma capa que sai do seu ombro direito até a cintura, no seu peito um medalhão em forma de cabeça que era um símbolo comum dado às status de Minerva. Brigantia  veste sapatos ou sandálias e carrega uma lança na sua mão direita e um objeto esférico na esquerda que seria um objeto que representa governo do mundo e do seu lado direito O Escudo redondo e sua cabeça tem um capacete do tipo não Romano quase esférico e tranças grossas de cada lado o capacete tem uma forma de lótus em seu topo que é provavelmente o triplo penacho desajeitado ela é a lata as suas asas são curvas que parecem sair da cintura lembrando mais a tradição oriental de representação de asas do que a clássica perto de sua perna direita tem uma pedra onfalóide,  segundo Nora nada é notadamente Celta  senão o cabelo trançado e o capacete com chifres anexados, porém Sheenna Garth não percebe esses chifres, só menciona o formato não-romano, o que não significa que seja especificamente celta.

Vamos aos símbolos encontrados:

  • A coroa mural cuja textura imita muros de pedra é um símbolo de deuses tutelares ou protetivos, a primeira deusa usá-la foi Tyche, deusa da fortuna, protetora de várias cidades gregas, também foi usada por Deméter e Cibele nas cidades em que eram suas protetoras, desse modo Brigantia era a Tyche de York.
  • Capacete cônico:há uma divergência entre ele ser o de Minerva ou não. Nora Jolliffe em Dea Brigantia dirá que o capacete e os cabelos são os atributos célticos da imagem, Richmond diz que o estilo não é romano podendo ser ornamento de um regimento auxiliar, e Mc Garth dirá que é difícil dizer se a pluma faz parte do capacete ou do fundo da imagem
  • Asas: atributo comum de Vitória como a famosa Nike de Samotrácia. Os altares dedicados à ela eram tão comuns que viraram símbolo de paganismo durante o conflito com a cristandade.Elas podem ser empréstimo direto de Vitória mas era raro em Minerva. O imperador Anonimus Pius e Commodus [Green e Raybould 125] cunharam moedas de uma Brigantia Victrix também alada.
  • Cabeça górgona: A lenda diz que Perseu apósdecepar Medusa dá à sua deusa de devolução Minerva, essa arma para que ela possa petrificar seus inimigos e Minerva o coloca sob seu escudo, porém na arte romana, a cabeça da Medusa é sempre entalhada no peito de Minerva qual um broche.É comum  á Minerva Victrix que era muito querida da família imperial
  • Globo: o mais estranho dos atributos pois sugere poderes imperiais e dificilmente os romanos iam querer sugerir que os brigantes eram vitoriosos, talvez signifique que Brigantia deu a eles à vitória, mas ainda não se explica o fato dela estar segurando o globo. O globo normalmente está sob os pés de Vitória. Esse posicionamento específico é raro e nas moedas do período Severiano, o globo nas mãos só aparece no Sol, Geta, Julia Domna e Securitas que é uma virtude imperial deificada.
  • Escudo e espada: são de Minerva que na mitologia pula da cabeça de seu pai armada, irresistível lembrar que Brighid na Irlanda tem um pai conhecido e poderoso e mãe não mencionada.
  • Pedra cônica:outro atributo ainda mais raro, fica a esquerda da deusa em forma ogival, à altura de seus joelho. Essas pedras são chamadas de OMPHALOS ou centro do mundo era um sinal das deidades orientais inclusive Tanit. Em Emesa, lugar de nascimento de Julia Domna, vários deuses são representados por pedras. Jollife diz que essa pedra pode não ser influencia oriental e sim por Brigantia ter sido originalmente adorada em um culto megalítico, oq eu explicaria a ausência de registros pré-romanos, pois seria através de pedras sagradas. A evidência desse culto às pedras se dá pelo nome de alguns monumentos chamados e Bridestones, logo essa pedra pode ser de Tanit ou de uma correspondência a esses culto às pedras deificadas no Norte da Bretanha.
Bridgstones em Yorkshire

Não há evidência de que ela tenha tido alguma associação com fogo a não ser sua associação com fevereiro que é data de diversos tipos de festival de fogo associada a diferentes santos e sua patronagem dos ferreiros pode ser o desenvolvimento de seu aspecto de deusa de fogo. Podemos pensar que Dagda tem um epíteto de fogo na Irlanda, mas não há evidencia britanico-romana de Brigantia com fogo. Um fogo perpétuo era mantido nos templos de Sulis Minerva em Bath, o significado não é claro, mas pode haver uma grande relação de templos de cura e fogos perpétuos que ainda desconhecemos.

Norah Jolliffe diz algo interessante sobre o culto à Brigantia com relação a diáspora: se todos os brigantes descendem de um grupo comum que habitava as proximidades do Lago Constance, (Archeology of Ireland R.A.S.Macalister) quando se espalharam, sua deusa também pode ter se acomodado ao ambiente e condições geográficas das respectivas áreas e então às experiências de seus cultuadores.

Da associação com Minerva podemos interpretar sua característica bélicas, protetivas e de poderes curativos. Uma outra inscrição, que a coloca como Ninfa reforça uma característica aquática, ou seja, de cura, além dos radicais dos nomes dos rios Brent e Braint também terem a mesma origem que seu nome. Inevitável lembrar dos poços de cura de Brighid na Irlanda.

A gente costuma no geral fazer cara de azedo pra romanização pois parece um ruptura de uma tradição mas nesse caso eles perpetraram, registraram e imortalizaram certas deidades e aspectos da religião céltica. Sheena MCgarth pensa nela como uma ponte entre duas maneiras de conceituar deidades: ela continuou a ser a deusa de seu povo enquanto o culto romano a incorporava usando sua própria imagética e entendimento.E especula ainda que a Brigantia pré-romana fosse como a Danu irlandesa, uma presença sombria e sem forma, sinônimo da terra.É uma segunda hipótese.

O próximo passo dessa jornada em busca de um perfil mais amplo sobre Brighid seria procurar o culto á Brigantia na península ibérica mas eu não encontrei informações consistentes, parece que em Bragança as pessoas parecem estarem convencidas de que o nome da cidade vem de Brigantia, mas pode vir de Breogán herói celta que aparece no Lebor Gaballa.Então esse é um passo que eu ainda não conclui…

Ao mesmo tempo que as fontes em geral se precipitam em embalar Brighid e Brigantia no mesmo balaio e faz com que com isso a gente deixe de perceber aspectos muito interessantes de Brigantia, elas também se precipitam em excluir Maman Brighitte. Eu soube a pouco tempo da existência dessa divindade no culto vudu haitiano e como eu já disse antes eu procurei ver Brighid com os olhos de uma descobridora, então antes de excluir como um inserção moderna uma vez que é característica do vodu assimilação eu fui buscar entender quem era essa Maman Brighitte com a maior neutralidade possível.

Mamma Brighitte ou Gran Brighitte é uma Loa dos Mortos, uma líder dos mortos, esposa de Baron Samedi que é senhor dos ancestrais e com ele governa a terra paradisíaca dos mortos, coincidentemente também é uma terra que se acessa pela água. Ela também é líder de uma categoria de espíritos classificados como Loa Creole ou Gedes, creole no caso significa que esses espíritos são daquela ilha e não originários do Benin. Ela também cura os doentes  e  é amiga particular de mulheres e crianças. Seu local de culto é a cova feminina mais antiga de um cemitério. Seu número é 9 e seu animal é o galo preto. Dia 2 de novembro é o dia de se pedir a Maman Brighitte e seu esposo proteção e fertilidade e justiça nos julgamentos, que é outra função dela. E esses pedidos são feitos em uma procissão em que tradicionalmente se veste roxo e se carrega sua cruz, oferendas e sua boneca até o cemitério.

A cruz no vodu é símbolo de travessia, suas oferendas são rum com chocolate amargo, ela tem uma forte relação com pimenta, o que pode ser interpretado como fogo

As bonecas de Maman Brighitte são feitas de lã feltrada e recheada com ervas propícias. Sua árvore é o salgueiro chorão e o Ulmeiro ou Olmo, que não só são árvores nativas da Europa como em algumas versões é árvore do Ogham.

elm como parte do ogham

E as brideógs também são bonequinhas feitas para Santa Brighid que atribui-se à deusa Brighid e que também são feitas para Maman Brighitte com os mesmos matérias, ervas e algodão ou panos brancos.

Bom, os símbolos e o nome não são indícios suficientes para que se diga que uma entidade tem relação com a outra, há coisas em comum além do nome, ainda que seja um nome comum, mas para que eu fosse convencida de que há uma relação: além do numero 9, boneca, julgamentos, água, cura, fogo metafórico da bebida forte e pimenta, eu pensei com esse processo, se ocorreu, pode mesmo ter acontecido? Já aconteceu antes de um deus aparecer em locais tão diferentes?

Já: aconteceu no processo de escravidão.Os deuses habitam nosso coração e por isso os bantos, nagôs, sudaneses trouxeram para o Brasil seus deuses territorias, suas deusas de rios e mantiveram o culto sob todas as adversidades, não é a toa que o culto brasileiro e africano se diferenciaram. Escravidão é um processo antigo, mas na América significa brutalidade, tortura e nessas condições os africanos se tornaram malungos e todas as diferenças somem, por isso o culto a orixás que era inimigos na África aqui vão pra debaixo do mesmo teto.E o que isso tem com Brighid?

Bom foi aí que especulando se seria possível Maman brighitte do vodu ter alguma relação com Brighid que eu descobri um assunto ainda bem recente na história que é a escravidão irlandesa nas Américas. Os irlandeses foram escravizados e vendidos pelas Companhia das Índias Ocidentais para países como Haiti, Jamaica, Barbados, Montenegro.Ainda é um assunto com pesquisa bem recente porque não era usado o nome “escravo” a Inglaterra disfarçava o exílio escravagista do irlandeses católicos chamando-os de serventes.

Abbot E. Smith em seu livro Colonists in Bondage diz que “é impossível dizer quantos navios de irlandeses infelizes foram despachados para as Américas pelo governo inglês pois não era desejável que esses navios aparecessem os papéis do estado.” Mas as estimativas estão entre 80 a 130 mil durante 1651-1660. O primeiro navio de que se tem registro foi em 1605 com destino ao rio Amazonas e não se sabe seu destino.

Bom, eu pesquisei bastante esse processo da escravidão irlandesa, e ela tem uma particularidade de serem católicos, o que reforça a ideia da santa  ter  sido levada ao Haiti principalmente por esse sequestro ter sido muito específico no trato de mulheres, meninas e crianças. Então essa escravidão explica a chegada da Santa ao país e o processo de escravidão de irlandeses e nagôs no Haiti teria sido o ambiente perfeito para que Brighid fosse apresentada ao que viria ser a origem da vodu.

Mas Maman Bighitte é ligada aos mortos e ancestrais. Sim, nesse novo ambiente essa característica se fez necessária. As descrições da época contam que por serem mais frágeis que os africanos, os irlandeses eram mais baratos e por isso eram colocados para fazerem os piores trabalhos, assim morriam logo. Era especialmente colocados pra abrir charcos e fazer trabalhos braçais muito difíceis e existem específicos por lotes de mulheres e crianças para consolá-los.

Prece para Maman Brighitte

  • Mesye la kwa avanse pou l we yo!
    Maman Brigitte malad, li kouche sou do,
    Pawol anpil pa leve le mo (morts de les, Fr.)
    Mare
    tet ou, mare vant ou, mare ren ou,
    Yo prale we ki jan yap met a jenou. 

    Cavalheiros da cruz avancem para ela vê-los!
    Maman Brigitte está doente, ela se deita de costas,
    Muita conversa não elevará a morta,
    Amarre sua cabeça, amarre sua barriga, amarre seus rins,
    Eles verão como eles ajoelharão.
    (Significando, arregace as mangas para se preparar, nós faremos para as pessoas que fizeram este feitiço maléfico ajoelharem-se, implorar perdão e receber o castigo delas.)

Prece para Brig Ambue cedida por Erynn Rowan Laurie e traduzida por mim

 

Se você acredita que eu sou a mãe reconfortante
Você está errado
Se você acredita apenas na criação da minha forja
Você está errado
Se você acredita que minhas músicas são apenas para elogiar
Você está errado
Eu sou o cainte
Cantando maldições sobre os meus inimigos
Eu sou a chama destruidora
Eu sou o lobo
Que baixa a tirania
Estou ira e fúria escaldante
Eu sou o Cisne Marrom nascendo do lago
Eu sou a tocha na mão de cada díberg (culto pagão aos guerreiros)
Eu sou o veneno da sátira e dor
Eu sou a raiva que chama à justiça
Eu sou o pé que anda sobre a maldade
Eu sou o medo no coração dos opressores
Eu sou o escudo contra todos os ataques
Eu sou a coragem qual riachos em suas veias
Eu sou a morte de cada ilusão
Meus filhos quebrarão todos os elos de correntes

Os dados sobre Escravidão Irlandesa vocês podem encontrar um jornal online chamado PEC que ésigla de Political Education Committee da American Ireland Foundation no Global Research

Caroline Wise que foi por 24 anos sacerdotisa da Fellowship of Isis de Nova Orleans, diz que a introdução do uso e bonecos no vodu veio do contato com os escravos irlandeses. É a mesma citada ontem pela Jully, que formou o Círculo de Ellen.

Então além do nome, do galo, o número 9, a proteção de mulheres e crianças, a associação com fogo a gente tem fundamento histórico que mostra que essa entidade tem relação com o culto irlandês a partir dessa pesquisa considero que Brighid vai muito além da deusa da lareira, senhora do leite e mel, ela venceu a romanização, o cristianismo, a invasão nórdica, atravessou o oceano com seus filhos e reina soberana na contemporaneidade.

Referências bibliográficas:

  • Kyrah Malika Daniels Enciclopedia of African Religion
  • Se Tou Melanje- uma etnografia sobre o universo social do  vodu haitiano tese de doutorado do Dr José Renato de Carvalho Baptista 2012
  • Shannon R. Turlington The complete idiot’s guide to voodoo
  • Sheena McGarth Brigantia Godess of North
  • Nora Jolliffe Dea Brigantia
  • Sobre escravidão irlandesa: Roger E. West England´s irish slaves, Irish Slave Trade John Martin, England Irish Slaves meme: the numbers Liam Hogan.
  • Minha gratidão ao Mestre Pedro Bogossian Porto historiador e antropólogo, ao Mestre Fábio Ferreira da Silva e Lucas Pinto de Lima, ao Dr Julio Cesar de Tavares antropologia UFF, Dr José Renato de Carvalho Batista UFRJ e Dr. Ricardo Freitas antropologia UFF por seu auxílio e esclarecimentos.
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